domingo, janeiro 30, 2005

30/01/05

Quando a noite obscura e perfumada vier
Me encontrará ao redor de mim
Estarei bela e serena como um penhasco
Eu sou um penhasco
Um abismo reverso
Uma gruta iluminada
Estalactites maciças
Um facho de luz na janela da casa de meu pai

Meu pai tem muitas moradas
Eu sou o filho bastardo
Eu não tenho nada pra chamar de meu
Eu sou o filho bastardo
Desconhecida de todos
Vivo onde não se vive
Sonho o que não se sonha
Fugi do altar de imolação
Pra errar no mundo
Tanto melhor errar por aí que sangrar até morrer
E pra quê?
Meu pai, que não me conhece, é senhor de muitos escravos
E os escravos são mansos, são ovelhinhas
Porque alguém precisa de tanta devoção?
Eu caí, mas triunfei.

Sou o reverso do abismo
Sou a luz pálida furando o casco das nuvens grávidas de água bem limpinha
Sou só mais uma
Sou uma mulher qualquer como todas as outras
Meu sangue ferve no sangue de todas as outras
Meu ódio cresce no ventre de todas as outras
Meu ventre, meu ventre será sempre o meu ventre, não será morada, não será casa, não será teto, não será abrigo, não será coisa alguma senão meu ventre: eis que tornei-me livre:
A maior rebeldia eu guardo para o desfecho final
Pois sou mulher e aguardo
Sou fêmea e caço
Sou menina e minto
Sou demônio e sonho
Não sou homem, não sou deus
Minha natureza é a de errar, errar por aí
Com tudo o quanto é lindo nos olhos
Correndo descalça por nem sei onde
Trançando os cabelos negros, bebendo o que me é dado, roubando o que me é negado, sorrindo às custas das misérias dos outros, cuspindo na compaixão dos homens de bem
Quero mais é que todos vão pra o inferno, vocês malditos homens de bem! pena que não existe inferno...
Eu estaria lá ciceroniando um por um.

Pode me chamar de mulher