papelitos soltos que escrevi enquanto viajava
03/02/05 +- 23h
eu vejo rostos no mato, gêmeos siameses, perfil com perfil entoando cânticos. olho de novo e não há nada lá. desde que posso me lembrar, eu vejo coisas onde não há nada pra ser visto além do que existe pra ser visto. mas eu vejo rostos, pessoas, aliens, anjos, demônios, celebridades e desconhecidos. rostos que se formam e se confundem nas texturas, luz e sombra, cores.mas não são visões realistas, são mais como pinturas naïfs, chapadas, bidimensionais, e, no entanto, perfeitamente reconhecíveis. eu vejo. eles sabem que eu vejo, por isso se mostram pra mim.
13/02/05 +-0h40bem, como eu poderia não ter me apaixonado pelo Gianluigi? além de ser lindo, sensível, engraçado, cheio de vida e batalhador, ele ainda é habitante de outro país e isso, senhores, esta impossibilidade de um relacionamento concreto e possível, isto o tornou o homem perfeito, o absoluto, a essência da paixão. Eu, com todas as minhas ilusões Românticas, não poderia ter encontrado um homem melhor! este homem, este italiano de férias, será minha fuga perfeita da minha triste, soturna e pesada realidade concreta, sem grandes paixões, sem fantasias, sem saída. ele não sabe, mas me comprou uma passagem pra Terra do Nunca. e os dias que passamos juntos,preciosos momentos, seguirão me assegurando da inferioridade – dramática – de todo e qualquer envolvimento com todo e qualquer cara que se me apresente de agora em diante, a não ser que uma paixão mais impossível surja. mas não posso contar com isso, seria esperar muito da sorte... sabe, os deuses realmente realizam nossos desejos pra nos punir. só pra isso. Ainda estou a muitas horas de casa [escrevi isso no ônibus], mas já posso sentir nitidamente o peso do cotidiano nos ombros. o Rio é lindo, sujo e cheio de mendigos negros (sempre negros e sempre embriagados não sei com o quê – me senti mal como de costume: maldita classe média!), o carnaval foi ótimo e cheirava a mijo, mas agora é estar de volta ao concreto armado, à solidão de minha casa, à poeira, feiúra e pobreza de Samambaia, aos homens prosaicos com que jamais criarei laços, às mentalidades prosaicas, provincianas e débeis com quem sou obrigada a conviver. que grande merda. não, não estou apaixonada, mas deveria; se estivesse apaixonada, teria algo pra preencher esse vazio escroto. vazio escroto. vazio escroto. não consigo achar uma definição melhor... me falta imaginação, palavras, coragem. me falta Gianluigi.


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