quarta-feira, agosto 02, 2006

a volta

Voltei.
Bem, na verdade eu voltei, mas alguma coisa ficou lá naquela Ilha Grande, e, em troca, ela me deu algo também. Foi uma troca estranha. A Ilha imprimiu algo em mim. Ou talvez tenha sido eu mesma que me mudei um pouco, mudei de perspectiva.
O que era meu e ficou lá foi assustador. Ficou lá mas está aqui em forma de ausência, de falta, de dor, de frustração. Meus senhores... Nunca houve uma semana tão intensa, tão misturada, tão terrível, tão linda e entediante na minha vida. Porque eu conheci um cara que me tocou de um jeito tão estranho que só não foi lindo porque foi horrível, foi brutal, não literalmente falando porque ele mal me tocou; foi brutal porque ele me tirou do prumo, da certeza de apatia recíproca entre mim e qualquer outro homem. Ele me dilacerou com frases num português mal dito (desculpem pelo trocadilho, não foi intencional). E porque somos muito parecidos, cada qual fugindo desesperadamente de seus medos, ele nunca soube o impacto que causou em mim, e eu não saberei dele mais nada, nunca mais e acho que isso é o melhor porque se eu conheci um cara, quase um garoto, que me causou assim essa desestruturação, e ele não quer ter responsabilidade nisso, não quer tomar parte, não quer nenhum envolvimento a não ser com mulheres descartáveis, então ele não tem lugar fora do meu coração. Ele jamais poderia habitar qualquer outro lugar, jamais poderia ser alguém com e-mail, com celular, alguém que tentasse me escrever dizendo generalidades e me perguntando sobre a vida. Chega uma hora em que a gente tem que optar pelo menor sofrimento... Eu optei por não pedir a ele o que eu queria, um contato.



Esse cara, esse cara me consumiu mais intensamente do que qualquer outro e isso é tão trágico quanto patético porque eu dispus de todas as minhas armas pra me defender e ele me dobrou como se eu fosse um papel. Não precisou me dizer muitas coisas, me disse só tudo o que eu não sou, tudo o que era ele na verdade. Ele me fez rir, me ofendeu, dançou comigo sem música, me elogiou, me fez chorar sozinha num banheiro de madrugada, me olhou felinamente, e partiu meu coração. Não sei como é que isso tudo pôde acontecer tão intensamente com um cara que eu mal conheço, que mal me conhece. Só sei é que dele não me esquecerei jamais porque ele gravou com fogo e sal seu nome em mim. Só sei que eu saí de perto dele tantas vezes quando tudo o que eu queria é que ele se calasse e me calasse com um beijo. Mas a gente só trocou mesmo um abraço, só um único abraço quando ele partiu. E ele demorou tanto tempo pra sair dali e mesmo tendo deixado sua mochila perto de mim, aos meus pés, deu tantas voltas quanto conseguiu pelo lugar e, quando conseguiu pôr a mochila nas costas, se afastou e acenou de uma distância segura pra mim. Foda-se esse meu orgulho, eu pensei, e me levantei e o abracei como eu pude naquele momento... Meu coração em pedaços, eu em pedaços, eu querendo pedir pra ele não ir, pra ele ficar, pra me dar tempo pra me acostumar a não tê-lo de jeito nenhum, nem perto dos olhos... mas eu não disse nada além de “have a nice trip”, ao que ele respondeu “it was nice meeting you” e se foi.
Agora ele é o fantasma da vez, me atormentando os dias e as noites.
Eu devo ter visto coisas onde nada havia, mas eu não consigo acreditar que ele me tratava mal porque simplesmente não gostava de mim. Que ele não tivesse me suportado, isso eu até aceito, mas porque me tratar mal e me tratar bem numa alternância tão esquisita? Não consigo deixar de sentir que ele é ainda pior que eu, que fugiu antes de qualquer coisa, que queria se poupar tanto que pisaria no meu coração pra não se ferir. Ele me disse que eu era perigosa e noutra ocasião que eu brincava com o coração dos homens. Custei a entender que ele falava de si mesmo. Quem me dera se eu pudesse oferecer qualquer perigo a qualquer homem... Ninguém me deu bola naquela Ilha, do jeitinho que eu saí daqui eu voltei no que diz respeito a contato físico com o tão desejado sexo oposto... teria sido bom se tivesse acontecido porque, enfim, é bom se sentir desejada, mas nada houve. Quer dizer, nada além dessa coisa conturbada com ele que, é provável, só tenha existido na minha cabeça. Mas, sei lá, um cara que faz piadinhas e tira sarro da cara da gente falando um português super gringo não ia entender justamente o que eu lhe disse? Meus senhores, agora entra o julgamento de vocês, me ajudem! Vejam bem, eu disse a ele que gostava dele mas que o achava estranho porque ele me tratava de forma estranha. Aí ele disse uns “eu não estranho não” e me perguntou por que eu dizia isso e eu expliquei que ele era esquisito, que me tratava muito estranhamente, fazia piadinhas, depois me tratava mal, me tratava bem e me tratava mal de novo. O que ele respondeu? Meu senhores, ele me disse que não era estranho, que tinha dormido com uma mulher dias antes e que na noite anterior tinha dormido com outra e q talvez a encontrasse de novo mas que disse a ela pra ela “ir com outros homens” porque ele não queria se prender a ninguém, não queria ficar preso. E que eu não o conhecia. O que eu respondi? Nada. NADA! Fiquei com o choro travado na garganta junto com todas as palavras. Tanta coisa me passou pela cabeça, mas nada passou pela garganta... Eu me virei e saí. Prendi o choro o quanto pude, mas achei que ia ter um troço de tanto que me doía aquilo... Por que diabos ele tinha que me contar esses detalhes da sua vida sexual? Era pra me magoar, pra provar que é o tal, o fodão? É pra enfatizar que não quer nada mais que uma trepada com uma mulher a cada noite? O que foi mais triste, pra mim, nisso tudo, é que eu entendi que ele me disse ali, naquele exato momento, que queria comer todas as mulheres da Ilha menos eu. A mim ele fudeu em outro sentido, muitíssimo menos agradável... Achei que fosse desmaiar de tanta dor, mas eu só podia olhar pra frente, pra longe dos olhos dele, e andar entre a multidão. Eu queria ter sido teletransportada pra casa antes mesmo que ele terminasse a frase, mas ainda demorei muito tempo pra ir. Tive que encarar seus olhos durante o café da manhã do dia seguinte, e é dele a visão mais recorrente que tenho da Ilha. O sorriso, a voz, os olhos... É como naquela música: ele tem todos os defeitos que um dia eu sonhei pra mim...
Ah, meus senhores... ele é a Ilha da qual eu não queria voltar... mas ele me cuspiu pra fora, como o vulcão vomitando lava. Ele me cuspiu pra fora de si só porque eu cheguei perto demais... e o resto foi transformado em cinza... ele queimou tudo, reduziu a cinzas tudo o que tocou em mim. E não me sinto mais forte ou mais sábia, só me sinto anestesiada, como se tivesse sido dopada pra não desabar antes de voltar pra casa. Mas uma coisa é certa: espero que isso nunca mais me aconteça na vida. Nunca mais quero passar por uma experiência dessas na vida. Nunca mais quero que alguém cause um impacto dessa intensidade em mim se não for pra se deixar afetar por mim também. Sabe, meus senhores, é muito foda pensar que eu estive totalmente desbaratinada por um cara que não sente nada, absolutamente nada por mim, que me tratava de forma estranha simplesmente porque é estranho. Que eu goste de um cara que não gosta de mim, isso é clichê já, ok, já tá pra lá de lugar comum, mas me atingir assim, feito uma bigorna na cabeça, isso não é nada ordinário e eu detestei isso. Detestei!

Uma música que está me martelando a cabeça agora é Eighties Fan do Camera Obscura. A letra não tem nada a ver com ele, mas o jeito como a vocalista canta, a melodia... putz, fico arrepiada pensando nele... Mas, sei lá, ao mesmo tempo é como se essa música estivesse falando dele, daquele ar hostil de moleque, como uma criança acuada, e eu sou como ele. Não sei… As coisas ficam tão confusas quando eu me meto nelas...

"...I'm gonna tell you something good about yourself
I'll say it now and I'll never say it about no one else..."

2 Comments:

At sexta-feira, agosto 04, 2006 5:32:00 AM, Anonymous Anônimo said...

Parece coincidência, mas na hora em que lia este post, estava escutando Karma Police do Radiohead, bom Vevs, esta natureza masculina acontece,alguns homens não lidam bem com as decepções e se fecham bastante, às vezes é o único caminho à se seguir, um dia, nos nossos bate-papos te explico melhor esse comportamento. Segue a letrinha do Karma (sinistra!). Beijinhos.

Karma police, arrest this man, he talks in maths
He buzzes like a fridge, hes like a detuned radio
Karma police, arrest this girl, her hitler hairdo, is making me feel ill
And we have crashed her party
This is what you get, this is what you get
This is what you get, when you mess with us

Karma police, Ive given all I can, its not enough
Ive given all I can, but were still on the payroll
This is what you get, this is what you get
This is what you get, when you mess with us
And for a minute there, I lost myself, I lost myself
And for a minute there, I lost myself, I lost myself

For a minute there, I lost myself, I lost myself

 
At sexta-feira, agosto 04, 2006 6:17:00 AM, Anonymous Anônimo said...

Ah sim, tou com umas musiquinhas novas, depois gravo uma coletãnea nova pra vc, mas sem músicas sinistras. ;]

 

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